quinta-feira, 31 de março de 2011

Golpe de 1964 - O apoio da Rede Globo, da Folha de São Paulo, do Estadão (PIG)




Roberto Marinho e General Figueiredo


Golpe militar de 1964 - Patrocínio PIG



Conheçam um pouco mais sobre o golpe militar de 1964.

A memória é a defesa contra a repetição de erros velhos.










http://agenorbevilacquasobrinho.blogspot.com/2011/01/direita-brasileira-patrocinadora-do.html





A História de Lily Braun - Chico Buarque





A História de Lily Braun


Composição : Edu Lobo/Chico Buarque


Como num romance
O homem dos meus sonhos
Me apareceu no dancing
Era mais um
Só que num relance
Os seus olhos me chuparam
Feito um zoom


Ele me comia
Com aqueles olhos
De comer fotografia
Eu disse cheese
E de close em close
Fui perdendo a pose
E até sorri, feliz


E voltou
Me ofereceu um drinque
Me chamou de anjo azul
Minha visão
Foi desde então ficando flou


Como no cinema
Me mandava às vezes
Uma rosa e um poema
Foco de luz
Eu, feito uma gema
Me desmilinguindo toda
Ao som do blues


Abusou do scotch
Disse que meu corpo
Era só dele aquela noite
Eu disse please
Xale no decote
Disparei com as faces
Rubras e febris


E voltou
No derradeiro show
Com dez poemas e um buquê
Eu disse adeus
Já vou com os meus
Numa turnê


Como amar esposa
Disse ele que agora
Só me amava como esposa
Não como star
Me amassou as rosas
Me queimou as fotos
Me beijou no altar


Nunca mais romance
Nunca mais cinema
Nunca mais drinque no dancing
Nunca mais cheese
Nunca uma espelunca
Uma rosa nunca
Nunca mais feliz


O reitor da USP (Universidade de São Paulo), João Grandino Rodas, é unanimidade: todos o rejeitam




Retire-se, sr. Rodas.

O reitor da USP (Universidade de São Paulo),
João Grandino Rodas, é unanimidade: todos o rejeitam

O reitor Rodas resolveu reinventar a roda.

O problema é que ele resolveu fazer da USP laboratório de testes para conseguir êxito em sua inglória tarefa.


A comunidade acadêmica não pode ficar à mercê de experimentalismos exóticos, impopulares e estranhos.


Por exemplo, algumas de suas decisões autoritárias:


a demissão de funcionários aposentados que estavam na ativa (feita, na calada da noite, em período de férias);

a transferência de alguns servidores para escritórios fora da Cidade Universitária (sem a consulta aos funcionários);

o desalojamento de grupos de estudos (sem garantias de que eles terão outra locação para suas atividades).


Por que razão o sr. Rodas, isolado politicamente, continua a rejeitar o diálogo?

Seu autismo administrativo tem cura?

As relações humanas devem ser cultivadas. Mas notamos a prática reiterada de hostilizar os movimentos organizados de funcionários, estudantes e professores.

A decadência da instituição é flagrante. Apesar disso, o passo a frente diante do abismo não se detém.

Algumas determinações podem ser corrigidas; outras são irremediáveis.

Não há recauchutagem que melhore métodos antidemocráticas. Quando a estrutura fica comprometida, a simples reforma já não resolve. São necessárias transformações de porte.

Sr. Rodas, interrompa o desgosto causado por suas deliberações. Renuncie. É um gesto de grandeza, não compatível com sua trajetória, é verdade. Mas quem disse que não podemos nos aperfeiçoar?

Largue o fardo de seu mandato, que o sr. insiste em transferir o peso para aqueles que sofrem com disposições dissonantes das necessidades que a USP e sua comunidade merecem.

Quando nos falta apoio, a humildade nos aconselha.

Mas sua surdez a tudo e a todos prejudica de forma indelével a USP como instituição.

O sr. é persona non grata. Retire-se!

quarta-feira, 30 de março de 2011

BoçalNato e suas truculências CeQueCianas merecem processos. Bolsonaro X Preta Gil


O golpe militar de 1964 é democrático, proclamou Mussolini, correligionário do BoçalNato.


BoçalNato e suas truculências

CeQueCianas merecem processos




Há escolas de fascismo em canais abertos.


Sob o pretexto do humor, destila-se a enciclopédia da regressão, do preconceito e ideias emboloradas.


Chega-se a defender a quartelada de 1964, a pena de morte, a homofobia, o racismo e outras pataquadas que são referências intelectuais para reacionários de diversos naipes.


Não obstante as constantes lutas da sociedade no sentido de remover as crostas de autoritarismo, apresentadores adeptos do retrocesso insistem em sequestrar das catacumbas figuras que não sabem conviver com as diferenças e que desprezam as regras básicas de civilidade.


A "liberdade de imprensa" desses profetas do atraso nada mais é do que a liberdade de impor pontos de vista alheios à vida democrática.


Fazem a apologia da ignorância, apostam no anacronismo e consideram que todos são consumidores de suas platitudes.


Mas os abusos reiterados dessas figurinhas de trânsito desembaraçado nos antros de poder precisam encontrar paradeiro.


Racismo é crime inafiançável.


Chega de leis apenas para os pobres.


Leis, são leis, quando são para todos.

terça-feira, 29 de março de 2011

Show de perguntas - contradições da Bíblia Quiz Show - Bible Contradictions


Show de perguntas - contradições da Bíblia

Quiz Show - Bible Contradictions



Por que acreditar em patriarcas ignorantes e senis?

Por que ideias emboloradas ainda estão em circulação?

Vamos arejar.

Mais Ciência. Menos regressão.

Saiba porque a ignorância atrasa a humanidade.



domingo, 27 de março de 2011

Cientistas falsos, como seus produtos, receitam formas para perder peso, ter cabelos... Ou como a medicina tem sido apropriada pela publicidade




Cientistas falsos, como seus produtos, receitam formas para perder peso, ter cabelos, ser objeto de desejo... Ou como a medicina tem sido apropriada pela publicidade.



“Ab Toner é um incrível aparelho especialmente desenvolvido para tonificar e firmar a musculatura sem a realização de exercícios físicos.”

“Tome Vitasay...” e outras recomendações “médicas” são veiculadas sem critérios todos os dias. Esportistas, senhores de avental branco (que induzem a pensar que são cientistas, e, portanto, ratificam a ideologia do discurso competente —1—) enumeram a relação de supostos benefícios que seus produtos podem causar aos consumidores.

Tratando-se de saúde pública, já seria um ganho se determinados “medicamentos” fossem inócuos e agissem como placebos. A dor seria a do bolso, passível, às vezes, de ser remediada. Todavia, a ansiedade e a angústia provocadas por falsas promessas podem levar a desgastes de caráter mais profundo, desfazendo laços de sociabilidade em função da desconfiança em relação a tudo e a todos.

Vejamos o caso de “aparelhos de ginástica passiva” à bateria. Solução para os problemas de pessoas tidas como obesas ou fora de forma, e que não têm disposição de enfrentar a série de exercícios e alimentação orientada por especialista (nutricionista), certo? Um momento. Não é tão fácil.

Sob o pretexto de “demonstrar” que o produto funciona são mostrados os clássicos casos “antes” e “depois”. Que beleza! “Poucas sessões são o bastante para proporcionar um abdômen rijo, pernas e braços perfeitos, sem problemas.”

Encantado, o consumidor pode redimir sua culpa por não estar com o porte físico “adequado”, ou seja, o imposto como padrão de beleza e de correção pelos que querem vender objetos que realizam a façanha de “moldar seu corpo como você sempre sonhou. E o que é melhor, sem esforço. A sua academia completa”.

Dados comprobatórios? Nada. Apenas depoimentos de ex-esportistas como Oscar Schmidt e Pelé. “Bastam!”, diz o discurso “competente”.

Dessa vez, pelo menos, o CONAR acompanhou a lógica.


PRODUTOS E SERVIÇOS PARA A SAÚDE

“AB Toner” e “Elyseé Belt”

Representação nº 108A/03, em recurso ordinário
Autor:
Conselhod Superior do Conar
Anunciante e agência : Brazil Connection e Unbicor
Relatores: Pedro Kassab e Renata Lorenzetti Garrido
Decisão: Sustação
Fundamento: Artigos 1º, 3º, 27 par. 1°, 2º e 50 letra c do Código

Esta representação ética foi aberta a partir de solicitação do Procon de São Paulo e queixas de consumidores que questionavam a eficácia do produto e a falta de comprovação das afirmações contidas em peças de publicidade em internet e TV.

Houve decisão de sustação em primeira instância.

Os anunciantes alegaram desconhecimento da existência do processo, dai não terem enviado defesa em tempo hábil. A ponderação foi acolhida pelo Conar como recurso ordinário.

Na defesa enviada, Brazil Connection e Unbicor alegam que Elysée Belt possui registro junto às autoridades sanitárias e que AB-Toner está na iminência de obtê-lo.

A relatora do recurso considerou que a eventual obtenção do registro não descaracteriza o dano ao Código ético-publicitário, que veta terminantemente a veiculação de anúncio de qualquer produto ou serviço voltado para a saúde sem o correspondente registro junto a autoridade sanitária.

Considerou também exagerados os resultados prometidos nos comerciais sem qualquer dado comprobatório, o que seria agravado pelo depoimento de artistas e esportistas como Oscar Schmidt.

Por isso, ela recomendou manutenção da decisão de sustação, voto aceito por unanimidade.




Em defesa dos consumidores, A Agência Nacional de Vigilância Sanitária, ANVISA, decidiu coibir as propagandas de remédios “milagrosos” que induzem à automedicação, regulamentando artigo constitucional que disciplina a divulgação de material publicitário, que passa a necessitar de autorização e da fiscalização do Ministério da Saúde.

“Aprovar o Regulamento sobre propagandas, mensagens publicitárias e promocionais e outras práticas cujo objeto seja a divulgação, promoção ou comercialização de medicamentos de produção nacional ou importados, quaisquer que sejam as formas e meios de sua veiculação, incluindo as transmitidas no decorrer da programação normal das emissoras de rádio e televisão.” 2

Em consequência, indústrias, distribuidoras e comerciantes de medicamentos; órgãos de comunicação e agências de publicidade que promovem medicamentos passaram a ser fiscalizados com o controle. As empresas tiveram 180 dias para se adequarem às normas. Os infratores da legislação sanitária estarão sujeitos a multas entre R$ 2 mil e R$ 200 mil , podendo sofrer suspensão das mensagens e ser dobradas em caso de reincidência.


Infrações:

Artigos 1º, 5º, 6º, 15, 19, 20, 22, 23, 24, 25, 27, 34 e 37.

Anexos: G, § 1-b.

I, § 2.

Q, § 5-1.



1— Ver CHAUÍ, Marilena. O discurso competente e outras falas. In: Cultura e democracia. São Paulo: Moderna, 1980.

2— De acordo com a Resolução – RDC nº. 102, de 30 de novembro de 2000, publicada no Diário Oficial da União em 01/12/2000 e republicada no DOU de 01/06/2001 por ter saído com incorreção, no DOU nº. 231-E, de 01/12/2000, Seção 1, p.28.

Ver http://www.anvisa.gov.br/medicamentos/legis/especifica.htm



sexta-feira, 25 de março de 2011

Brecht, história e o teatro épico >>>>> dialética




Bertolt Brecht


A guerra e outros combates
Resumo
Considerando o contexto histórico da produção da obra do dramaturgo e pensador alemão Bertolt Brecht (18981956), analisaremos, numa de suas obras iniciais, como ele avalia o significado da rebelião do inverno de 19181919.
Palavraschaves: Bertolt Brecht; rebelião; teatro burguês; teatro político; distanciamento.





Baal, de Bertolt Brecht

Resumo
Este trabalho acompanha o poeta andante que devora, dança e glorifica-se. Observa o questionamento do artista sobre o preço da existência e sua disposição em pagá-lo. Ademais, analisa o apetite insaciável cujo atendimento repõe a sede de imediato.
Palavras-chaves: Baal, instintos, satisfação, associal.








Brecht: arte, História e poder

Resumo
Analisando o contexto histórico da produção da obra de Bertolt Brecht (1898-1956), investigamos sua concepção de arte, história e poder. Ademais, verificamos sua contemporaneidade em tempos de “globalização”.
Palavras-chaves: Brecht; arte; história; poder; teatro político.






Carbono 14 estético. Em busca de dramaturgos essenciais

Resumo
Com a técnica do Carbono 14 estético, este trabalho procura examinar critérios de datação de obras de dois dramaturgos brasileiros: Nelson Rodrigues e Oduvaldo Vianna Filho (Vianinha). A partir de textos aqui considerados como paradigmáticos desses autores, verificamos sua atualidade ou defasagem referente ao presente contexto histórico da sociedade brasileira.
Palavras-chaves: Datação; atualidade; essencial; velho/novo.


Sr. Ministro Luiz Fux - Decisão temerária sobre fichas-sujas



Decisão temerária sobre fichas-sujas



Sr. Ministro Luiz Fux,

A sociedade brasileira esperava mais do senhor.

É uma pena que sua decisão tenha produzido o sorriso dos fichas-sujas e indignado todos aqueles que trabalham honestamente e observam que determinações com suposto amparo constitucional protegem aqueles que deveriam estar sob a custódia do Estado brasileiro, mas em outras dependências.

Lamentamos profundamente seu voto contra as aspirações das pessoas que labutam e são lesadas pelos beneficiados com sua deliberação política.

quinta-feira, 24 de março de 2011

RESENHA do livro “O RATO PENSADOR”, por Maria Sílvia Betti






RESENHA

SOBRE “O RATO PENSADOR”, de Agenor Bevilacqua Sobrinho.
Companhia Cultural Fagulha, 2002, Coleção Teatro na Escola.
Maria Sílvia Betti - Professora da FFLCH/USP - Universidade de São Paulo


"O RATO PENSADOR" e seu percurso de descobertas e reflexões.

"O Rato Pensador", fábula teatralizada por Agenor Bevilacqua Sobrinho, é a recriação de uma narrativa popular da Sardegna relatada pelo pensador Antonio Gramsci (1891-1937) em uma das cartas que escreveu do cárcere a Giulia, sua mulher. Desenvolvendo o enredo a partir da narrativa evocada por Gramsci, Agenor presta homenagem ao filósofo ao mesmo tempo em que traz ao público brasileiro a oportuna reflexão acerca da responsabilidade social presente na fábula sarda.

O vasto material epistolar deixado por Antonio Gramsci é rico em referências à importância do ato de narrar, assim como em reminiscências de infância impregnadas de menções a historietas correntes no contexto sardo do início do século.

Sendo a Sardegna contemporânea a Gramsci uma região pobre e marcada por problemas socioeconômicos, o paralelo estabelecido por Agenor com o contexto brasileiro do Nordeste e de regiões de baixa renda torna-se extremamente significativo. Esse é um dos aspectos centrais da fábula recriada e de sua encenação.

Um rato toma o leite que uma mulher, pobre e desempregada, estava reservando para o filho. O choro do menino e a frustração da mãe enchem o rato de remorsos. Disposto a reparar o erro, ele tenta proporcionar ao garoto o leite de que o havia privado, e acaba chegando a uma série de constatações que transformam seu olhar a respeito das relações sociais e do impacto delas sobre a natureza.

No percurso que assim se inicia, o rato é acompanhado por duas pequenas palhacinhas com as quais dialoga e com as quais comenta as dificuldades que encontra ao longo do caminho.

Um enredo simples e desenvolvido a partir de uma situação aparentemente desprovida de aventura leva a surpreendentes desdobramentos: ao contrário do que julga o rato, sua boa vontade individual não é suficiente para sanar o problema, cujas raízes são mais profundas do que ele supunha: a cabra, desnutrida, não tem pastagens para se alimentar, e portanto não pode lhe dar o leite desejado; o capim seco que cresce no campo devastado precisa de água que possa revitalizá-lo a fim de alimentar a cabra e dar-lhe forças para produzir o leite; a fonte, destruída pela guerra, deixa escorrer e perder-se a água que poderia irrigar o campo e fazer crescer o capim; o pedreiro, que não dispõe de pedras, não pode consertar a fonte, e a montanha onde se encontram as pedras sofreu o desmatamento e a erosão resultantes da ação dos especuladores, cujo interesse único é o lucro.

Toda uma conjuntura ampla e complexa vai sendo pouco a pouco desvendada pelo ratinho pensante. Em sua trajetória não faltam os atropelos motivados por encontros com representantes do saber acadêmico (personificado no autoritário Professor Atrapalhão), do tempo expropriado pelo mundo competitivo do trabalho (simbolizado na corrida desenfreada do personagem Atrasildo em sua maratona de compromissos e nas dezenas de relógios que leva consigo) e da incapacidade de transformação (associada ao personagem Apavorado, que nutre um medo supersticioso e apocalíptico de tudo à sua volta).

Ironicamente, a chave para lidar com esse conjunto intrincado de situações acaba sendo fornecida pela Bruxa, figura a quem o rato havia relutado em recorrer, a despeito dos conselhos recorrentes das palhacinhas. A imagem de uma feiticeira perversa e cheia de artimanhas cai por terra quando, vencendo o preconceito, o rato se dispõe a ouvi-la, e descobre nela uma mulher do povo, cuja sensatez e sensibilidade serão decisivas para levá-lo a encontrar a melhor forma de agir diante das situações que se apresentam.

Ao invés de mágicas e sortilégios, o rato encontra nas sugestões da mulher uma perspectiva de ação sobre a realidade à sua volta. As palavras dela apontam para um processo longo, e não para uma solução imediata, e a transformação produzida virá apenas com o tempo: para que o menino tenha o leite, é preciso que a consciência interfira na sociedade e na natureza. A imagem do dominó, sugestivamente presente na brincadeira das crianças no início do espetáculo, funciona como metáfora de toda a cadeia causal de circunstâncias com as quais o rato irá se defrontar e que irão desencadear o seu processo de reflexão e aprendizado.

A fábula de Agenor incorpora à matéria-prima da narrativa de Gramsci um importante elemento de reforço de seu sentido crítico, que é a presença constante do ato de narrar: o rato relata os acontecimentos às duas palhacinhas que o acompanham, e, ao fazê-lo, constrói um olhar sobre eles, permitindo que sejam postos em discussão.

As meninas, que vêem de fora a sequência dos fatos, interagem e opinam; o rato, colocado diante de suas interlocutoras, critica-as na mesma medida em que compartilha com elas toda a sua aflição.

Também as figuras de Atrapalhão, Atrasildo e Apavorado funcionam como elementos emblemáticos inseridos por Agenor na estrutura da fábula sarda, e permitem uma referência crítica ao mundo da escola, do trabalho e das relações sociais, respectivamente.

A questão ecológica, que perpassa todo o texto, é indissociável da existência da guerra e da exploração da natureza e do trabalho, aspectos que conferem ao espetáculo uma grande riqueza de possibilidades sob o ponto de vista pedagógico.

Gramsci, aprisionado em 1927 e morto dez anos depois, passou sua última década de vida entre o cárcere e as clínicas de saúde, sempre em regime de liberdade vigiada. Na época de sua prisão, seu filho mais velho, Delio, a quem ele não tornaria a ver após ser preso, tinha então três anos de idade, e o mais novo, Giuliano, que ele só conheceu por fotos e cartas, ainda não era nascido.

O desejo de transmitir a eles afeto e experiência foi avidamente canalizado por Gramsci através das cartas, e encontrou em lembranças de infância e em narrativas folclóricas um importante veículo de comunicação com os meninos. Vem daí o cuidado didático e afetuoso com que o filósofo instrui Giulia a recontar a fábula aos garotos: "gostaria de contar agora a Delio uma história da minha terra que me parece interessante. Vou resumi-la para você e você a desenvolverá para ele e para Giuliano".

O resumo feito pelo filósofo não edulcora os elementos originais da narrativa popular, como acontece, via de regra, em narrativas contemporâneas de contos infantis tradicionais. Gramsci preocupa-se em transmitir a Giulia o arcabouço de fatos de forma objetiva e despojada. Isso comprova a eficácia do material narrativo contido no enredo da fábula, que se apresenta rica de elementos a serem, tal como ele recomendou à esposa, desenvolvidos no relato aos meninos.

Ao contrário do que ocorre nos contos de fadas convencionais e nas histórias de aventuras, a riqueza da fábula não está contida nas ações praticadas, mas no conjunto de relações que elas desvelam e na presença implícita daquilo a que Gramsci se refere, em sua carta, como "um verdadeiro plano próprio de trabalho, orgânico e adaptado a um país arruinado pelo desmatamento". Nada mais adequado, portanto, do que o título "O Rato Pensador", referência a um itinerário de descobertas que levam à construção de um pensamento crítico.

         A concepção essencial da fábula recriada por Agenor se faz presente na concretização de um preceito essencial que remete não apenas ao pensamento de Gramsci mas também ao do dramaturgo e pensador teatral Bertolt Brecht (1898-1956): as coisas e as conexões mais triviais devem ser examinadas atentamente e discutidas, pois em sua forma e nas relações que constroem existem aspectos importantes a serem conhecidos e dominados. "Em tempo de desordem sangrenta," diz Brecht, "de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar." Esse é, justamente, o espírito do trabalho desenvolvido por Agenor Bevilacqua Sobrinho em seu espetáculo "O Rato Pensador".
Maria Sílvia Betti
Professora da FFLCH/USP – Universidade de São Paulo

O Rato Pensador
Ed. Companhia Cultural Fagulha
editora@ciafagulha.com.br


Editora: Cia. Fagulha
ISBN: 85-902373-1-1
Páginas: 60