segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises) ou Tea Party escreve roteiros em Hollywood



Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises)
ou Tea Party escreve roteiros em Hollywood

Demonizar a revolução para manter o status quo

Minha filha convidou-me a ir ao cinema no Dia dos pais.

“Ótimo!”, pensei.

Mas ela queria assistir Batman: O Cavaleiro das Trevas Ressurge e eu, francamente, não tenho mais idade para isso. Todavia, resolvi atendê-la. “Vamos lá.”

A coprodução anglo-americana dirigida por Christopher Nolan parece ter sido roteirizada pelo movimento Tea Party.

Além da simplificada divisão do mundo entre o bem e o mal, o filme estereotipa as reivindicações por transformação social e distribuição de renda como sendo plataformas de terroristas, bandidos, assassinos sádicos e fundamentalistas.

Chega ao cúmulo de apresentar uma caricatura grotesca de um “tribunal popular” que julgaria os ricos (financistas e outros barões), responsáveis pelas agruras e misérias sofridas pelo cidadão comum que viu o governo (Obama) subsidiar em centenas de bilhões de dólares corporações que desempregaram, mas foram beneficiadas pelo financiamento público pago pelas próprias vítimas do processo.

Mulher-gato  [Selina Kyle (Anne Hathaway)], uma ladra, ao final redime-se e alia-se a Batman [Batman/Bruce Wayne (Christian Bale)] na luta contra o mal, personificado na figura monstruosa do vilão [Bane (Tom Hardy)], não só pela face deformada e o uso desbragado da violência, mas, sobretudo, porque questiona as disparidades produzidas pelos conglomerados de Wall Street, os quais são providencialmente mascarados pela substituição nas figuras dos corretores, as baratas-tontas da engrenagem, resguardando os rentistas golpistas que conseguiram transferir à sociedade o custo de suas perdas no cassino financeiro.

Na ótica bizarra do filme, a “revolução” é a tentativa de brutais e covardes psicopatas que tudo farão para destruir a lei e a ordem estabelecidas, não para em seu lugar erigir uma nova sociedade, mas simplesmente para extinguir tudo e a todos com a explosão de uma bomba atômica tão poderosa que a de Hiroshima seria recordada como o acendimento de um palito de fósforos.

Numa narrativa autorreferente, apesar de atribuir aos outros toda sorte de práticas de tortura e vilezas — lembremo-nos dos horrores praticados pelos EUA em Abu Ghraib, Guantânamo etc.—, temos identificada, de modo primário no piegas filme de Guerra Fria fora de época, a senha do que fazer quando comunistas e outros bárbaros propõem transformações recusadas pela extrema-direita americana (programas de saúde para os miseráveis e pobres e outras iniciativas de respeito básico à cidadania elementar).

Não satisfeitos com o uso abusivo da violência, eufemisticamente denominada como gênero de “ação”, os doutrinadores políticos recusam qualquer respeito às leis da Física, erodindo com explosões quase completamente um campo de futebol americano — e boa parte de sua estrutura — mas tornando possível a um jogador correr impunemente um metro adiante do chão desmoronado e manter as arquibancadas para o espetáculo da besta-fera pontificando o fim das injustiças, ou seja, a extermínio do mundo, na concepção dos escribas do roteiro.

Batman carrega a poderosa bomba atômica para alguns poucos quilômetros de Gotham City, e não são mencionados problemas de radiação, contaminação da água ou quaisquer outras consequências da detonação do artefato nuclear. Além da personagem-título sair, como uma barata, incólume.

E o fecho é didático e ilustrativo. O bilionário Wayne, benfeitor e caridoso, se reconcilia com a ex-ladra Mulher-gato e desfruta de refeição num caro restaurante.

Corolário: bilionários aliam-se a trapaceiras e toda sorte de aproveitadores, desde que o sistema permaneça intacto e invulnerável às intromissões selvagens das massas. Cuja única serventia é dedicar-se docilmente para as luzes permanecerem sob as condições do Consenso de Washington e da ordem neoliberal.

Convenhamos, o colapso destes é tão notório, mesmo para seus proponentes, que torna ainda mais ridícula a pueril tentativa de preservá-los na memória cinematográfica.


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4 comentários:

  1. Cara, aconteceu comigo a mesma história. Fui ao cinema como convidado de minha filha. No meio do filme eu já estava com sono, decepcionado. Nunca tinha visto um Batman tão reacionário; tão Tea Party. A saída da sala de projeção foi pior. Imagine um sujeito de 50 e tantos anos assistindo um filme desse, onde não fica quase nada além do mal estar causado pelo roteiro-lavagem cerebral e a beleza da paisagem da cena inicial.

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    1. Meu caro, Tea Party parece dominar a cabeça de muitos roteiristas. Não bastava a mente de George Bush?

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  2. Meu amigo, eu respeito de sua opinião, mas não concordo, pois primeiro: creio que não retrata toda a revolução como ato de barbárie, essa sim, devido principalmente ao conceito nilista da mesma, também creio que o conceito principal do Bane é a de um ditador,um tirano, que conta ao povo o que ele quer ouvir mas nas vias de fato age de outra maneira.
    O filme na minha opinião traz um carater messiânico, no qual emergiria do poço (miséria)alguém que nos salvaria, esses alguém acredita-se ser Bane, mas de fato é o homem morcego, bane é retratado como a figura biblica do falso messias, tão qual Hitler,eu vejo o filme com um significado diferente, e muito critico ao capitalismo animalesco, pode reparar no filme, várias cenas que mostram pessoas em buracos, esgotos e logo no próximo take é mostrada uma copertura, fazendo assim um laço entre elas, "eles estão na m*** porque esses estão na vida boa", e a mensagem do filme é que se a classe alta massacrar de forma repetitiva a classe operária, se aparecer um Hitler eles o seguirão, pois qualquer esperança é melhor que nenhuma.
    Realmente as cenas de explosões são exageradas, mas você quando citou a bomba atômica parece que não prestou a devida atenção ao filme, ela não era uma bomba nuclear igual a de Hiroshima, no filme eles deixam bem claro que aquilo não é uma bomba termonuclear e sim uma bomba de neutrons, que possui efeitos muito diferentes da jogada em Nagasaki.
    Na minha opinião eu vejo de adolescente e até certo ponto conhecedor do batman não só no cinema, mas outras mídias, tenho uma visão muito diferente da sua, e tenho que respeitar a sua visão, mas eu peço que você o veja novamente, sem esse preconceito com que você foi ver o filme da primeira vez, tentando abstrair algo diferente

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  3. Caro NicolasC4, é verdade que a bomba de nêutrons é diferente das lançadas em Hiroshima e Nagasaki. Porém, aquela destrói "apenas" seres vivos, não afetando edificações, conforme elogiava Ronald Reagan.

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