segunda-feira, 23 de maio de 2016

Enquanto isto, na Temerlândia… e As propostas do Instituto Malignum, da Temerlândia. Por Flavio Aguiar



 Enquanto isto, na Temerlândia… 
As propostas do Instituto Malignum, da Temerlândia. Por Flavio Aguiar
Temerlândia: a meta é piorar.
Sempre é possível piorar... para os pobres



Enquanto isto, na Temerlândia…

Enquanto isto, na Temerlândia…

Eu, Temerlão I, no uso de minhas atribuições usurpacionais, decreto provisoriamente o seguinte, ad sæcula sæaculorum:

Para aprimorar a agenda social de nossa amada Temerlândia, ficam instituídos os seguintes programas, que suspendem todos os demais anteriores:

  1. O Bolsa Elite. Como se sabe, dinheiro para pobre é gasto, dinheiro para rico é investimento. Todos as famílias que pertençam ao 1% mais rico da nação receberão um auxílio-investimento no valor anual de 1% de sua riqueza para ajuda-los a gerir seu capital em prol de criar mais riqueza ainda. A bolsa será dada sempre através dos membros machos destas famílias.

  1. O Mais Pobres. O corte dos outros programas anteriores visa incrementar em número, grau e qualidade a pobreza no país. Como se sabe, nosso programa educacional já em curso, Bíblia para todos, precisa  mais e mais de adeptos fervorosos. Assim os cada vez mais pobres poderão rezar mais e efusivamente para garantir uma melhoria. Na outra vida, é claro.

  1. O Menos Médicos e Mais Doenças. Os grandes economistas da amada Temerlândia, reunidos no Instituto Malignum, garantem que ter muita gente com saúde é mau para o país, pois faz o PIB cair. Ao contrário, o incremento do número de doenças, doentes, epidemias, pandemias, desnutriçãoe outras bem-vindas mazelas faz o PIB aumentar, pelos gastos e desgastes que provoca.

  1. O Minha Miséria, Minha Vida. Viver ao ar livre é ótimo. Assim, cortando investimentos habitacionais, propiciaremos o aumento dos sem teto em nossa querida Temerlândia, que, ao ar livre, além de gozarem da natureza, poderão ficar doentes, incrementando também, em efeito cascata, o Menos Médicos e Mais Doenças.

  1. O Trevas para Todos. Os melhores oftalmologistas, psicólogos e filósofos do Instituto Malignum garantem que viver na escuridão estimula o pensamento e aguça a reflexão introjetada ao invés da intrometida. Assim suprimiremos o fornecimento de energia elétrica para pelo menos 15% das famílias que fizerem parte do incremento promovido pelo Mais Pobres. Os mais atingidos pelo Trevas para Todos poderão ficar deprimidos, incrementando assim o Menos Médicos e Mais Doenças e o Minha Miséria, Minha Vida.

Como se vê, a sinergia e a integração entre nossos programas são totais.

Mas tem mais.

Todas as mulheres da nossa Temerlândia deverão fazer obrigatoriamente os cursos de Prendas Domésticas I, II, até Cem. Ao final receberão o devido diploma, e as que se mostrarem mais ineptas para o trabalho fora de casa receberão a comenda “Do Lar”, a ser entregue no Palácio Cegonha, ao lado do Jaburu.

Daqui por diante, todos os diplomatas brasileiros deverão fazer os seguintes cursos:

Teoria Positiva da Dependência, Teoria da Dependência Positiva, Teoria da Dependência Impositiva, Teoria da Dependência Obrigatória, Teoria da Dependência Compulsória, Teoria da Dependência Compulsiva. Os cursos ficarão ao encargo do nosso querido mestre, o Barão de Hygyenópolys, auxiliado pelos professores do Instituto Malignum. Formação adicional obrigatória em “O Petróleo é Deles”.

Todos os que quiserem se tornar políticos, deverão fazer os seguintes cursos: Golpe Militar, Golpe Parlamentar, Golpe Jurídico, Golpe Branco, Golpe Cor-de-Rosa, com pós-graduação em Golpeachment.

Fica instituída a Comenda da Ordem de Silvério dos Reis para o vice que melhor trair seu titular, empregando as técnicas aprendidas nos cursos acima descritos. Também se institui a Comenda Borsanara para o político que melhor defender os ideais imorredouros da Redentora de 64.

Ficam revogadas todas as disposições em contrário, e ficam revogados todos o que se opuserem a estes decretos. Se não quiserem se revogar, borracha neles. Sob a forma de balas, é claro.

Temerpólis, aos 20 de maio de 2016.




As propostas do Instituto Malignum, da Temerlândia. Por Flavio Aguiar

Carta aberta a Sua Majestade Temerlão I

Excelentíssimo Soberano Primeiro e Único

Nós, do Instituto Malignum, sempre vigilantes dos verdadeiros interesses pátrios, vimos até Vossa Magnificência apresentar as seguintes propostas:

  1. Estudos de nossos melhores cérebros Malignuns demonstram que o pleno emprego é uma ilusão de ótica que faz muito mal à saúde macro e microeconômica de um país. Basta olhar o nosso país vizinho, a Macrolândia, que antes era uma Microlândia aos olhos do saudável capitalismo financeiro internacional. Com alguns poucos meses de incremento da pobreza e do desemprego, nosso país vizinho cresceu na reputação do 1% da população que realmente interessa levar em conta no mundo. No passado recente tivemos a desagradável situação de enfrentarmos a adversidade de taxas de desemprego muito baixas. Isto é péssimo, pois só faz aumentar o custo-Temerlândia, através de uma iníqua valorização dos salários, coisa que atrapalha  os investimentos necessários à locupletação do 1% de nossa população que verdadeiramente conta para a saúde da pátria, ao contrário dos 99% de párias que só pensam em atrapalhar a vida com sua busca de melhores salários e condição de sobrevivência, com exigências supérfluas como moradia, comida, remédios, transporte a preços acessíveis, como se merecessem tal. Esta situação perversa se coadunava com a incessante, injusta, perniciosa, subversiva valorização do salário mínimo, até mesmo para mulheres e domésticas que devem, com muita justiça, perceberem menores ganhos dos que os homens brancos, sobretudo aqueles que usam terno escuro, de tanto agrado de Vossa Maximalidade. Assim que tomamos a liberdade de sugerir-lhe a criação da Secretaria de Promoção e Aprofundamento da Desigualdade Social. A dita Secretaria terá, por primeiro objetivo, o de instituir o Ano do Desemprego Obrigatório para todos os trabalhadores assalariados de nosso querido país. Todo trabalhador assalariado seria, assim, obrigado, de tempos em tempos, digamos, a cada três anos, a permanecer desempregado por 365 ou 366 dias, conforme o ano for bissexto ou não, para aumentar nosso Exército de Reserva Desempregada, o que daria contribuição fundamental para rebaixar o salário mínimo, aliás, todos os salários, atraindo assim todos os investimentos necessários para melhorar a acumulação  de riqueza por parte daquele 1% que realmente toca a pátria para frente, comendo coxinhas ao invés de pão com mortadela. Os trabalhadores que burlarem este programa seriam obrigados a trabalhar de graça pelo próximo triênio.
  2. Para tanto, será necessário interromper a insidiosa campanha atualmente promovida em nossa pátria e fora dela para deslegitimar o preclaro governo de Vossa Magnitude, denominando-o de usurpação, fruto de um golpe de estado. Nossa Linguista e Jornalista-Mór, a reconhecida internacionalmente Doutora Cheirosa Castanhola, elaborou parecer e proposta no sentido de que daqui por diante seja eliminada de nossa semântica a palavra “golpe”, que vem tendo este uso torpe o que, além de tudo, é uma rima imperfeita. A palavra seria eliminada em todas as suas intervenções indevidas em nossa língua. Por exemplo, a própria expressão “golpe de estado” seria substituída por “eventual mobilização patriótica de recursos extra-constitucionais”. Outra expressão, o conhecido “golpe do baú”, seria trocada por “casório capitalizante”, mais adequada aos tempos de nossa viagem para o futuro que Vossa Emerência quer implantar, e sabemos que em nossa Temerlândia, em se implantando, dá. Já, por exemplo, “golpe baixo” passaria a ser “impacto de pouca altitude”, e assim por diante. Todos os dicionários, livros, jornais que ainda usam ou venham a usar qualquer forma da palavra “golpe”, isolada ou em conjunto, serão queimados na Praça do Único Poder, em nossa Capital, a Temerília, em lembrança de prática similar feita em terra distante, em regime passado de saudosa memória para todos os verdadeiros patriotas. Jornalistas, escritores, escribas, radialistas, âncoras de tevê, etc., que deixem, mesmo que sem querer, escapar de seus lábios ou teclados a palavra proibida, terão sua mão esquerda cortada, para ver se assim tomam jeito, usando só a direita. Também poderemos abrir um processo no Tribunal Internacional de Ditatória contra toda a imprensa mundial que teima em chamar o que ocorre em Temerlândia de “Soft Coup”, “kalter Putsch”, “Coup d'État” e outras expressões usadas para denegrir (o termo é muito apropriado) a imagem imaculadamente alva de nossa bela e democrática Temerlândia, mais democrática ainda depois que eliminou-se de nosso horizonte esta temeridade, desculpe, esta ousadia que é basear o poder do governante no voto popular. Aliás, para completar vossa excelsa obra, poderia se instituir um curso supletivo para políticos denominado “Como Ganhar Eleições sem um Único Voto”.    

Sem querer tomar mais o tempo de Vossa Preciosidade, subscrevemo-nos
Mui Atenciosa e Cordialmente,

Dr. Róseo Protuberante
Diretor-Presidente do Instituto Malignum.

     *   Flávio Aguiar é escritor e pesquisador. Atualmente, reside em Berlim.



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Indicação de leitura

A Guerra de Yuan narra a história de um intrigante personagem do futuro e de um sombrio mundo de autômatos fortemente moldados e cerceados pelos meios de comunicação, cuja função massificadora é claramente ligada à concentração de um poder central nas mãos da Yuan-Mind, empresa que controla as engrenagens do mecanismo totalizante e esmagador de Yuan.


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